09/06/07...5:13 am

Ensino que é bom…

Ir para os comentários

Educação

Mãe ganha na Justiça o direito de protestar
contra o colégio da filha. Na cartilha sobra
ideologia e falta conteúdo


Camila Antunes

Roberto Setton
Mirian com a filha, Luísa: indignada com os erros factuais e com a doutrinação esquerdista

“O aparecimento da propriedade privada deu origem à desigualdade social em comunidades neolíticas e na Grécia antiga. Esse é um mal que os capitalistas hoje procuram acobertar.” Esse samba do sociólogo louco parece guardar distante parentesco com a teoria de Karl Marx, mas o rigoroso filósofo alemão ficaria chocado com a letra. Criticar o capitalismo é saudável, como qualquer crítica. Mas fazer proselitismo esquerdista usando fatos errados é de lascar. As análises em questão circulam pelos vários capítulos de uma apostila de história e geografia usada em classes de ensino médio de 200 escolas particulares do país. O dono do material é o grupo COC, de Ribeirão Preto, que vende as apostilas às escolas. Ao se interessar pelo material didático usado na escola da filha, a dona-de-casa Mírian Macedo, 53 anos, levou um susto. Ela correu ao Colégio Pentágono, de São Paulo, um dos que aplicam as apostilas, decidida a cancelar a matrícula da filha. Luísa, de 15 anos, estudava lá havia nove. Mírian condensou as passagens que soavam a ela como “panfletagem grosseira” em um texto no qual denuncia o que chama de “Porno-marxismo”. Em março, o artigo da dona-de-casa passou a circular na internet. O caso acabou na Justiça. Por meio de uma liminar, o COC exigiu a retirada do nome da instituição do documento. Há duas semanas, a Justiça reavaliou a questão e deu a Mírian o direito de divulgar a versão original. O COC, por sua vez, avisou que fará uma revisão de suas apostilas, usadas por 220.000 estudantes. Reconhece Chaim Zaher, o dono do grupo: “Erramos mesmo”.

Ao chamar atenção para o viés ideológico nas apostilas de sua filha, Mírian (que se define como “marxista desiludida”) expõe um problema bem maior. Apostilas e livros didáticos adotados pelas escolas brasileiras estão contaminados pela doutrinação política esquerdizante. Resume o sociólogo Simon Schwartzman: “As crianças não aprendem mais o nome dos rios ou as datas relevantes da história da humanidade. Elas estão tendo contato com uma ciência social superficial, marcada pela crítica marxista vulgar”. É esse o ponto. As editoras deveriam ser mais criteriosas na erradicação desses dogmas e das simplificações que, como diz Schwartzman, vulgarizam o ensino. Karl Marx foi um pensador profundo e complexo que tirou a filosofia das nuvens e a colocou no mundo real. Nisso é equiparado ao grego Aristóteles, cuja obra deu vida material aos ensinamentos essencialmente teóricos de Platão. Reduzir Marx ao esquerdismo de botequim que se nota em alguns livros e apostilas é uma ofensa ao filósofo alemão e um desserviço à educação dos jovens brasileiros.

Muitos dos livros e apostilas que servem de base para as aulas apresentam problemas ainda mais básicos, como erros factuais e de português – e redações primárias. O texto “Como se conjuga um empresário”, panfleto anticapitalista sem graça nem gosto reproduzido nesta página, foi o que mais chamou a atenção de Mírian. Mas a mãe se indignou com muitas coisas mais. O colégio onde estuda a filha reagiu com coragem e correção. Não renovou o contrato com o COC e mandou tirar de sua própria apostila o texto em questão. Assinado por um desconhecido escritor cearense que atende pelo nome de Mino, a peça já havia cativado outros deseducadores. Em 2005, serviu de tema para a redação no vestibular da Universidade Federal de Minas Gerais. Inspirados na obra, os candidatos deviam produzir um texto crítico sobre o comportamento do empresário. Com um detalhe: o narrador da história seria uma “secretária anticapitalista”, indignada com as peripécias do patrão. “Os jovens estão expostos a uma salada de slogans que não esclarecem nada sobre o mundo em que vivemos – isso só emburrece”, diz o filósofo Roberto Romano. Como mostra a reação de Mírian Macedo, as escolas ensinam, mas cabe aos pais educar – no sentido mais amplo possível.

ERROS E DOGMAS ESQUERDISTAS

Trechos das apostilas da 1ª série do ensino
médio do COC e do Colégio Pentágono

A escravidão no Brasil é justificada pela condição de inferioridade do negro, colocado como animal, pois era ‘desprovido de alma’ (…). Além da Igreja, que legitimou tal sandice, a quem mais interessava tamanha besteira?
(Capítulo “Nós e a história”, pág. 97 da apostila do COC)
Comentário: a Igreja já era, então, contrária à escravidão. O papa Paulo III escreveu, em 1537: “Ninguém deve ser reduzido à escravidão”

A dissolução das comunidades neolíticas, como também da propriedade coletiva, deu lugar à propriedade privada e à formação das classes sociais, isto é, a propriedade privada deu origem às desigualdades sociais (…).
(Capítulo “A pré-história”, pág. 103 da apostila do COC)
Comentário: o conceito de “classes sociais” não se aplica a uma sociedade organizada em clãs. As desigualdades subsistem desde que a humanidade vivia da caça, da pesca e da coleta

O surgimento da propriedade privada dos meios de produção (…) provocou, na Grécia, a formação da sociedade de classes organizada sob a cidade-estado.
(Capítulo “O período arcaico”, pág. 128 da apostila do COC)
Comentário: as classes na Grécia antiga eram determinadas pela ascendência dos cidadãos – e não por sua riqueza

Como se conjuga um empresário: vendeu, ganhou, lucrou, lesou, explorou, burlou… convocou, elogiou, bolinou, estimulou, beijou, convidou… despiu-se… deitou-se, mexeu, gemeu, fungou, babou, antecipou, frustrou…
(Pág. 14 da apostila de redação do Pentágono)  
Comentário: tolice ideológica que, além de ser sem graça, predispõe os alunos contra o sistema de geração e distribuição de riqueza que é a base da democracia, a economia de mercado

1 Comment

  • Pedro de Castro Magalhães Gomes
    junho 13th, 2007 at 9:48 am

    Senhor Moderador do site “http://www.50centsdollar.com.br/”,

    Sou estudante do Colégio Pentágono, unidade Perdizes. Curso o segundo ano do Ensino Médio e gostaria de comentar o artigo inserido em seu “site”, publicado também na revista Veja de 10.6.2007, sobre atitude tomada pela Sra. Mírian Macedo, mãe de uma ex-aluna da unidade Morumbi, acerca de informações contidas em apostilas do sistema COC, utilizadas em minha escola.

    Não admito que nenhum dos meus professores sejam acusados de adotar apostilas de conteúdo “pornomarxistas” e “deseducadoras”. Aliás, a expressão “pornomarxista” é por si só desrespeitosa. Não se qualifica nenhuma teoria de “pornô”, ainda que se trate de teoria que revele ideologia com a qual não se concorde e que possa ser considerada errada, ultrapassada e até mesmo absurda. A deselegância da expressão utilizada revela falta de educação de quem se diz preocupada com ela.

    Para que os menos avisados que leram o artigo e que não conhecem minha escola e meus professores, gostaria de prestar alguns esclarecimentos.

    Nenhum professor de minha escola é obrigado a adotar exclusivamente as apostilas do COC, para ministrar suas aulas. Aliás, desde o início do Ensino Médio as disciplinas de História e Geografia (que foram citadas no artigo) são ministradas por professores muito competentes, sendo que a qualidade das aulas é tão boa que nem é preciso utilizarmos as apostilas, bastando as anotações de classe.

    Em mais de uma oportunidade, pequenos equívocos constados nas apostilas foram imediatamente corrigidos pelos próprios professores. Meu professor de História já nos orientou que riscássemos determinada informação equivocada contida na apostila, substituindo-a pela informação correta por ele mesmo fornecida.

    Também nunca nenhum dos meus professores durante minha vida escolar inteira (estudo no Pentágono há 13 anos) me induziu a alguma ideologia de esquerda ou direita. Eles sempre expuseram os fatos como são, deixando que nós alunos tirássemos conclusões e formássemos opiniões próprias, sobre os diversos fatos históricos, sem nunca tentarem exercer qualquer atividade doutrinária sobre mim e meus colegas.

    Espero que os senhores tenham lido a Folha de S. Paulo de ontem, 12 de junho de 2007, pois há uma reportagem de Daniela Tófoli no caderno Cotidiano que expõe o comentário da diretora pedagógica do meu colégio, Gracia Klein e o pronunciamento de defesa de José Henrique Del Castillo Melo, diretor da Editora COC. A reportagem da Folha, ao contrário do que ocorreu com a da revista Veja, não se preocupou apenas em expor um único lado da questão.

    Na mesma reportagem, o teólogo Fernando Altemeyer da PUC-SP, procurado pela Folha, afirma que um texto da apostila, indicado como errado pela Sra. jornalista Mírian Macedo está correto apesar de mal escrito. Trata-se da questão envolvendo a Igreja e a escravidão. Informou o teólogo que a Igreja apoiava sim a escravidão, não tendo a Sra. jornalista se aprofundado mais em sua pesquisa, o que a fez não levar em conta o fato de a bula papal que menciona não ter sido aplicada, ao menos na Igreja da América Latina da época colonial.

    No que diz respeito ao texto de autoria do poeta Mino, subestimado em minha opinião pela revista Veja, pois se trata de poeta integrante do forte movimento da literatura marginal, novo equívoco cometeu a Sra. jornalista, infelizmente amparado pela revista Veja.

    O texto do referido poeta foi citado na apostila de redação, porque foi objeto de questão no vestibular da UFMG. Sempre foi preocupação de nossa professora de redação, nos preparar para o vestibular, sendo assim correta sua atitude de procurar se informar sobre os temas que já foram apresentados nas provas.

    Em nenhum momento nossa professora de redação teceu qualquer comentário contra ou a favor do texto do referido poeta.

    No meu entender, a Sra. jornalista e a revista Veja “pinçaram” partes dos textos das apostilas, sem se preocupar com o contexto em seu todo.

    Sua atitude equivocada, a fez referir-se a Mino, qualificando-o como “um desconhecido escritor cearense que atende pelo nome de Mino”. Entendo que a expressão utilizada pela Sra. jornalista demonstra preconceito. Ademais, Mino não atende pelo nome de Mino. Mino se chama Mino, trata-se de seu nome, do qual seguramente deve se orgulhar.

    Presto as informações acima, preocupado com o risco que envolve a publicação de notícia que não se aprofundou no exame do tema.

    Desde já grato pela compreensão,
    Pedro de Castro Magalhães Gomes – aluno do 2 ano do Ensino Médio do Colégio Pentágono – Unidade Perdizes.

Deixe uma resposta