10/03/08...6:00 am

O culpado é o estrangeiro?

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Por: José Celso de Macedo Soares

No nosso arraial “esquerdizante” é bonito atacar o estrangeiro como causador de todos nossos males. Político de certo prestigio não se cansava de repetir a cantilena: a causa de nossos males são as “perdas internacionais”. Difícil é definir o que são “perdas internacionais”. Acho que nem ele sabia.

Para grande maioria dos brasileiros, o capital estrangeiro é imperialista e colonizador. Mas será que esta tese se aplica internacionalmente? Alguns respingos da história: como as nações se tornaram ricas? Portugal e Espanha encheram suas burras com ouro e prata retirados de suas colônias. Eram grandes impérios coloniais e, de acordo com a teoria marxista, exerciam plenamente a exploração do trabalho alheio. Mas, isto levou estas duas nações à riqueza? Pelo contrário, empobreceram. À época, a Inglaterra, sem nenhum império colonial, foi se tornando próspera. E por quê? Porque aperfeiçoou seu sistema de governo e, desde os primórdios desta arrancada, fez respeitar na pequena ilha os princípios fundamentais das liberdades humanas e do trabalho como base.

A Inglaterra é a pátria dos grandes documentos constitucionais. Já em 1215, mais de sete séculos atrás, o rei João Sem Terra era obrigado a outorgar aos barões e à burguesia a Magna Carta em que nenhum imposto poderia ser criado sem o consentimento do Conselho do Reino. Foi a Magna Carta a criadora do Parlamento Moderno. Depois da Magna Carta, vieram a Petição de Direitos, de 1628, o Habeas Corpus Act, em 1679, a Declaração de Direitos, em 1689 - que estipulava, entre outras, coisas a reunião periódica do Parlamento - e, finalmente, o Act of Settlement de 1701 que impedia a destituição dos magistrados pelo rei. Atentem os leitores para a data da emissão destes documentos. O mais moderno tem mais de dois séculos de existência. A prosperidade da Inglaterra se deu, pois, pelo estabelecimento do Estado de Direito, que permitiu seu desenvolvimento empresarial. Não se deu por causa da colonização da Índia, da África ou do Oriente Médio. Só depois de se tornar próspera é que surgiu o Império Britânico. Ao contrário, em Portugal e Espanha a exploração colonial trouxe o entorpecimento do espírito empresarial, levando estes paises ao empobrecimento. Serviu, principalmente, para enriquecimento da nobreza ociosa.

Mas voltemos ao Brasil. Explica-se em parte este xenofobismo - aversão ao estrangeiro -, por algumas camadas de nossa população pelo fato de termos sido colônia por tanto tempo e mal colonizados. A aversão ao colonizador português extravasou para o resto das outras nações. Felizmente, nem todos pensam assim.

É preciso que se entenda que, hoje, no mundo, a prosperidade dos povos vem, principalmente, da capacidade tecnológica e cultural de seus concidadãos e da capacidade de iniciativas e inovações de suas empresas. Todos estes fatores elevam a capacidade produtora do pais, enfim, criam sua prosperidade.

A síntese de tudo que afirmo se resume na máxima: nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Olhemos com pragmatismo nossos problemas, aceitando os capitais, vierem donde vierem, desde que respeitem as leis brasileiras, sem nos esquecermos de que somos nós que fazemos nossas leis. O importante não é onde vivem os acionistas, e sim onde se situam as fábricas, geradoras de empregos.

No relacionamento internacional, o tratamento entre nações deve ser o da estrita reciprocidade. Entre nações não há amizades, há interesses coincidentes. Foi o que demonstraram todos os países hoje chamados desenvolvidos. Eles não chegaram onde chegaram fazendo benesses aos paises pobres.

Minha experiência em participar de várias conferencias internacionais, tratando de nossos interesses marítimos, ensinou-me que quem tinha razão era John Graham, visconde Dundee (1649-1689): “Negócios são como azeite, não se misturam com outra coisa que não seja negócio”.

Nesta época de interação entre nações, comumente chamada de “globalização”, não cabe mais o xenofobismo. O que vale é a capacidade de produzir de cada povo, a busca da qualidade e da eficiência, no dia-a-dia de suas atividades. O resto é subdesenvolvimento e não adianta culpar outros países por isto.

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