28/02/08...5:20 am

Competição é dureza

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Por: Odemiro Fonseca

Competição comercial é o que mais mete medo aos empresários. Pois os mata mais do que recessões e guerras. E contra guerras e recessões, pouco pode o empresário fazer. Mas contra competidores, o empresário pode fazer muito.

O empresário pode dinamitar a fábrica do competidor. Ou matá-lo. É o que fazem os traficantes de drogas. Mas as conseqüências hoje e aqui são terríveis. A Justiça brasileira funciona. E socialmente pega muito mal. E atualmente dumping pode significar suicídio. Não estamos mais no Século XIX.

Antigamente o rei autorizava quem ia importar, fabricar e vender. Bastava ser amigo do rei. Mas com o Estado nação, a república e a revolução industrial, o comércio e a competição se intensificaram muito. Foi quando os empresários descobriram os políticos e acadêmicos.

Industrialização e nação criaram a idéia que o nascimento de indústrias dentro de fronteiras requeria incentivos e proteções. Logo a idéia contaminou a academia. O industrial Joseph Wharton, em 1881 fundou a Wharton School, que contratou professores cujos trabalhos resultaram em legislação protecionista. Que protegiam as indústrias dele.

Mas por essa época se começou a entender que quem dava valor a produtos e serviços eram os consumidores. Eram eles que provocavam cada vez mais competição. E que a competição não era um jogo de soma zero, mas sim central à prosperidade das nações. Era um processo civilizado de cooperação entre pessoas que não se conheciam, um processo cada vez maior de divisão do trabalho no tempo e entre regiões e nações. Proteger empresários regionais e nacionais poderia salvá-los, mas à custa do empobrecimento dos consumidores de uma nação.

Muitos empresários entenderam cedo o desafio. Em 1895, o carioca Charles Harrah Jr., presidente da Midvale Steel na Philadelphia, deu uma entrevista ao New York Times. Ele demonstrava de forma didática como as restrições às importações de insumos prejudicavam a qualidade do aço produzido nos EUA e a qualidade do material ferroviário. “Os americanos acabam com piores trens e os EUA perdem competitividade”, afirmava Harrah.

Charles Jr. deixou o Brasil com 22 anos, casado a carioca Georgina Balfour. Sua família morou 40 anos no Brasil, onde seu pai foi um notável empreendedor. De ferrovias a bondes, de estaleiros a telegrafia, de uso do vapor a técnicas de marketing, em tudo tinham sido pioneiros. O irmão mais velho, o engenheiro George Harrah morou em São Paulo onde era sócio em estradas de ferro e onde seus três filhos nasceram. Em 1884 George deixou o Brasil e logo foi para Cuba, onde construiu uma ferrovia.

O patrimonialismo brasileiro expulsou os Harrah, que voltando para Philadelphia, compraram ferrovias, companhias de bondes, bancos e a Midvale Steel. O quase presidente da Midvale era o engenheiro Frederick Taylor (aquele da chamada administração cientifica). Mas o Charles pai queria o filho na presidência e Taylor teve que sair. Mais tarde Taylor foi consultor de Joseph Wharton.

A América Latina é a única parte do mundo ocidental que é pobre. Hoje existem excelentes pesquisas que mostram ser o protecionismo a principal razão, que veio com esta outra importação que é o nacionalismo. O papel dos empresários latino-americanos é vergonhoso, quase sempre preferindo as vizinhanças do poder a prestar atenção aos consumidores. Mas o papel dos acadêmicos é muito pior, ora validando o protecionismo ora ensinando ser a competição resultado da avareza e da falta de escrúpulos dos empresários.

Aceitação da competição civilizadora não é algo intuitivo. Deve ser ensinada. Quanto mais cedo melhor, como mostra a experiência do Junior Achievement. Ajudaria muito se a entrevista do carioca Charles Harrah fosse lida pelas crianças brasileiras.

Em 1917, logo depois de George Harrah morrer em Havana, na enorme mansão que ele construíra e adorava, a ferrovia dos Harrah em Cuba foi dinamitada por um competidor, membro do congresso. A Justiça se acovardou. O caso é um clássico sobre o abuso do nacionalismo como instrumento de ação política para proteger empresários locais, que acaba se refletindo na Justiça. Em 1929 tornou-se um caso submetido a arbitramento internacional.

A América Latina ainda é uma região do mundo em que é possível “dinamitar” a fábrica de um competidor, sob o olhar complacente ou mesmo a ajuda do governo. A pobreza por aqui é uma escolha política.

(Publicado no O Globo em 26 de Fevereiro de 2008)

1 Comment

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