28/02/08...5:11 am
A ‘mágica’ do mercado

Por: Rodrigo Constantino
“A essência da vida é infinita e misteriosamente multiforme, e, portanto, ela não pode ser contida ou planejada, em sua completude e variabilidade, por qualquer inteligência central.” (Vaclev Havel)
O editor e economista-chefe do Financial Times, Martin Wolf, escreveu um ótimo livro sobre a globalização: Why Globalization Works. O valor do livro está na combinação de inúmeros dados importantes com uma objetividade incrível ao tratar do assunto. Em um dos capítulos, The ‘Magic’ of the Market, Wolf faz um bom resumo da teoria do funcionamento da economia de mercado. Veremos os principais pontos do autor, já que a globalização é apenas a extensão desse funcionamento para além das fronteiras nacionais.
A busca pelo lucro nos negócios é a força ativa que leva à transformação econômica, através das escolhas de investimentos e das inovações tecnológicas. A economia de mercado, como resultado disso, é a única instituição humana que gera uma ‘revolução permanente’. O exemplo citado por Wolf é o da revolução industrial, que pode ser mais bem entendida como uma revolução no uso da energia, saindo do uso da força animal para a energia inanimada: vento, água e combustíveis fósseis. A expectativa de vida na Inglaterra era de 24 anos entre 1300 e 1425, provavelmente muito próxima daquela no Império Romano. Entre 1801 e 1826, o nível já havia saltado para 41 anos, e em 1999 tinha atingido 77 anos. Entre 1820 e 1998, a população mundial se multiplicou por quase seis, e o PIB por quase 50, fazendo a renda per capita saltar quase nove vezes. Muitos encaram estes fatos como uma coisa natural, ignorando o quão extraordinária foi tal conquista. E o mais espantoso é que não havia ninguém no comando. Wolf abraça a metáfora da “mão invisível”, de Adam Smith. O auto-interesse, coordenado através do mercado, motiva as pessoas a inventar, produzir e vender todo tipo de bens, serviços e ativos.
Mas o funcionamento do mercado não ocorre sem certas características. Para um funcionamento sofisticado, é preciso resolver alguns problemas antes, como: o fluxo de informação, que deve ser livre para dar confiança naquilo que se compra; as promessas, que devem ser cumpridas, mesmo que num longo espaço de tempo; a competição, que não deve ser impedida; e os direitos de propriedade, que devem ser protegidos. Em resumo, a confiança é peça fundamental para um bom funcionamento do mercado. Se a trapaça e o roubo são encarados como normais, a sociedade não terá nada além de um tímido e subdesenvolvido mercado. Se o governo pode, de forma arbitrária, alterar as regras no meio do jogo, o mesmo problema surge.
Wolf entende que as companhias são as servas das forças do mercado, não suas mestres. Se as empresas não atendem as demandas no mercado competitivo, elas desaparecem. Logo, são os próprios consumidores que ditam as regras, que definem o que as empresas deverão fazer para sobreviver. Wolf compreende também a crucial relevância dos mercados financeiros para o bom funcionamento do mercado como um todo. São os agentes do mercado financeiro que levam os recursos daqueles que não precisam deles para aqueles que necessitam ou podem usá-los melhor. A ligação causal entre um funcionamento eficiente do sistema financeiro e o crescimento econômico, a estabilidade macroeconômica e a redução da miséria fazem com que devamos sempre buscar a manutenção do primeiro.
O tema da desigualdade não foi ignorado pelo autor. Wolf lembra que as sociedades mais desiguais foram as socialistas, incluindo a nacional-socialista na Alemanha de Hitler. A ironia, segundo ele, é que tais tiranias desiguais foram justificadas pelos horrores alegados da desigualdade capitalista. Para eliminar estas desigualdades, todo poder foi concentrado nas mãos do Estado, que inevitavelmente gerou desigualdades maiores para o benefício daqueles que o controlavam. Wolf lembra ainda que, no passado, os mais poderosos detinham um poder incrível, enquanto por mais bilhões que Gates ou Buffett tenham, eles são apenas cidadãos, empreendedores, investidores e filantropos. O mercado competitivo não elimina necessariamente a desigualdade, mas reduz seu poder. Hitler, Stalin, Fidel, Mao e Pol-Pot detinham um poder que os bilionários americanos jamais sonhariam em ter.
Por fim, uma sociedade mais rica, possível através de uma economia de mercado, permite que os indivíduos possam ser menos guiados por objetivos materiais, ao contrário do que muitos socialistas afirmam, já que isso é impossível em uma sociedade onde a maioria das pessoas vive num estado de subsistência. O maior conforto fornecido pelo capitalismo liberal pode despertar outros interesses não necessariamente motivados pelo material, diferente do que ocorre em sociedades miseráveis. Um dos maiores motivadores pela revolta irracional com a economia de mercado é a comparação de uma realidade complexa com uma sociedade de santos que jamais existiu ou existirá. A “imoralidade” atacada no capitalismo é contraposta a uma utopia, onde seres humanos abnegados se sacrificam somente em prol dos outros. Quando deixamos essa comparação de lado, pois absurda, vemos que o capitalismo liberal é não só o meio mais eficiente de se criar riqueza, como também o mais justo e moral. Devemos deixar o mercado realizar sua “mágica” em paz, sem tanta intervenção do governo.
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